Fly me to the moon
Fly me to the moon
Let me play among the stars
Let me see what spring is like
On Jupiter and Mars
In other words, hold my hands
In other words, baby, kiss me
Fill my heart with song
And let me sing for ever more
You are all I long for
All I worship and adore
In other words, please be true
In other words, I love you
"O segredo do sucesso é saber algo que ninguém mais sabe."
Aristóteles
Analisando "Wall Street".
Por João Luís Almeida Machado*
Disponível em: <http://www.planetaeducacao.com.br/novo/impressao.asp?artigo=1028>
. Acesso em: 23 jul. 2008.
Nenhuma cidade encarna com tanto brilho e propriedade o status de metrópole
capitalista como Nova Iorque. Seu metrô movimentado, os portos por onde
desembarcam produtos, os prédios elevados quase nas nuvens, o batalhão de
executivos que caminham pelas ruas e avenidas da “Big Apple” e até mesmo as
canções que evocam sua grandeza são alguns símbolos dessa vocação para o
dinheiro e os lucros que vemos nessa cidade norte-americana.
Mas entre todos os poderosos símbolos do capitalismo
ianque e, particularmente de sua maior e mais conhecida cidade, destacam-se
Wall Street e a Bolsa de valores. Cenário de crises intensas vividas ao
longo da história, em especial do famoso “crack” da bolsa em 1929 e também
de inúmeras histórias de sucesso e gigantescos lucros, como temos
acompanhado mais recentemente com a valorização fabulosa dos papéis das
empresas do segmento de tecnologia de ponta, como a Microsoft ou, ainda mais
presentemente, do Google.
E o que mobiliza e direciona todos a Nova Iorque e a Wall Street? O
dinheiro, é claro. Todos querem estar onde os maiores e mais importantes (e
vultosos) negócios são fechados. Os Estados Unidos desde há muito tempo é
visto por milhões de pessoas como sendo a terra da promissão. Os próprios
governantes e cidadãos daquele país sopraram aos ventos por muito tempo a
idéia de que seu país seria a terra escolhida por Deus para colher os
melhores e maiores frutos que a Terra poderia oferecer aos seres humanos.
Hoje, em virtude do terrorismo e da pobreza que ainda atormenta a existência
das populações de seus pobres vizinhos a proposta já não é mais a mesma...
Fecham-se as fronteiras, impede-se a entrada de imigrantes, criam-se
inúmeras barreiras para quem queira ingressar no mercado de trabalho local,
desvalorizam-se certas nacionalidades e etnias,...
Mas a idéia de Terra Prometida já faz parte do imaginário
coletivo mundial e o fluxo de pessoas que ainda tentam entrar nos domínios
de Tio Sam continua alto. E naquele imenso território há os destinos
prioritários e preferenciais para quem entra no país. Los Angeles, San
Francisco, Detroit, Chicago, Dallas, Boston, Seattle, Washington (D.C.) e
tantas outras cidades cresceram em importância, tornaram-se centros
econômicos e políticos destacados dos Estados Unidos, mas nenhuma delas
conseguiu (ou conseguirá) atingir o status e a respeitabilidade no mundo dos
negócios que Nova Iorque atingiu...
Wall Street é, por sua vez, a Meca local para os investidores, empresários e
capitalistas em potencial que queiram chegar aos tão almejados dólares. É lá
que estão as “verdinhas”...
Milhões são movimentados no mercado de ações e envolvem produções e
resultados financeiros de ontem, hoje e amanhã de empresas presentes em
todos os continentes e países. Negociam-se os papéis e, indiretamente, o
destino de empresas, produtos, pessoas e até mesmo de governos e países...
De café a petróleo, de bovinos a hardware, de biocombustível a
refrigerantes, todos os produtos e serviços que nos habituamos ou precisamos
consumir diariamente são alvo de agitados e energéticos corretores e
empresas especializadas na compra e venda de ações. Todos querem chegar lá,
ou seja, atingir o doce sonho de contas bancárias milionárias (ou
bilionárias, como temos visto mais recentemente).
E como chegar lá? De acordo com o personagem Gordon Gekko (Michael Douglas),
o importante no negócio é ter acesso às informações, no momento correto,
para que os melhores e mais lucrativos negócios possam ser fechados. A mais
importante mercadoria do mercado não é, portanto, petróleo, tecnologias de
ponta, tabaco, trigo ou Coca-Cola e, sim, a informação...
E nessa guerra pela informação, usando um pouco do conhecimento gerado por
Maquiavel, mesmo que de forma distorcida e sem profundidade, não importam os
meios a serem utilizados para se atingir tal finalidade, em todos os casos,
na luta dos mercados financeiros, o que realmente vem ao caso são os lucros
e o sonante depositado nas contas dos investidores...
Talvez essas lições tenham sido tão repetidas, como verdadeiras ladainhas ao
longo do tempo que, consolidaram-se como verdades absolutas e acabaram
transformando o dinheiro em objeto de culto por parte não apenas dos
investidores, empresários e governos, mas praticamente de toda a
humanidade...
A sedução das “verdinhas” praticamente dita o ritmo das atividades mundiais,
a especulação deixou de ser apenas mais uma febre, se tornando uma
verdadeira epidemia e, com isso, qualquer valor ético, religioso,
humanitário ou de qualquer outra natureza que se oponha a obtenção dos
polpudos rendimentos por parte dos empresários e investidores tem que ser
destruído, desmobilizado, tirado de cena,... Será que é esse mundo mesmo
aquele em que queremos viver?
O Filme
Buddy Fox (Charlie Sheen, em um de seus melhores momentos no cinema) é um
jovem e ambicioso corretor que atua numa empresa mediana do segmento em Wall
Street, Nova Iorque. Mas Buddy não quer ser apenas mais um corretor e sabe
que a empresa em que trabalha não irá lhe proporcionar as melhores e mais
promissoras oportunidades. O crescimento tem que ser rápido, os números de
sua conta bancária têm que dobrar, triplicar ou quadruplicar no mais curto
espaço de tempo e, aparentemente, os atalhos para chegar lá são poucos e os
gurus que o ajudem a chegar aos tão desejados dólares são aparentemente
inatingíveis...
E Fox acredita que suas chances reais de crescimento encontram-se no
mega-investidor Gordon Gekko (Michael Douglas, em irrepreensível atuação que
lhe valeu um merecidíssimo Oscar). Gekko é visto por Fox como o messias que
o ensinará os caminhos para chegar aos melhores negócios no mercado de
ações... Mas Gekko é quem quer se aproveitar do jovem e de sua ambição
desenfreada para aumentar sua fortuna. Para atingir esse objetivo ensina ao
novato corretor que o mais importante nesse ramo de atuação é informação de
qualidade, fresca, pronta para indicar caminhos que ninguém ainda tomou,
fazer fortunas em especulação da noite para o dia...
E como obter essas informações antes dos demais competidores do mercado de
ações? Pelas vias legais todos têm as mesmas chances, ou seja, é uma corrida
muito mais disputada e imprevisível quanto aos resultados a serem obtidos.
Que tal então partir para apostas mais altas e desafiadoras? É nelas que
encontramos as pistas que levam ao baú dos tesouros do mercado de ações...
Espionagem comercial e industrial são os caminhos mais curtos ensinados por
Gekko a Buddy Fox. Os riscos são grandes, a ilegalidade é notória nessa
forma de atuação, mas os rendimentos e lucros ao final são muito maiores e a
agilidade com que o dinheiro cai nas contas não encontra similares em
nenhuma parte do mundo...
“Wall Street – Poder e Cobiça”, filme de 1987, dirigido pelo talentoso e
polêmico Oliver Street, traz não apenas grandes atuações de seus
protagonistas, mas principalmente uma história envolvente, rica e intrigante
sobre o submundo dos negócios no mercado de ações. A interpretação de
Michael Douglas como Gekko é tão convincente e impressionante que, poucos
são aqueles que depois de ver o filme conseguem sair imunes a seu discurso
que prega o lucro a qualquer preço... Não percam é uma lição para quem quer
entender o mundo sem limites em que vivemos nos dias de hoje...
Para Refletir
Quais são os valores que ensinamos para nossos filhos e alunos nos dias de
hoje? Quais são os valores prezados e trabalhados pela escola em que seu
filho estuda? Como são tratados assuntos como ética, dignidade, respeito e a
relação que estabelecemos com o dinheiro no mundo de hoje? Inúmeras são as
pessoas que passaram a cultuar o dinheiro e a adotar o mantra de Gekko em
“Wall Street – Poder e Cobiça” e dos empresários e investidores do mercado
de ações. É questão primordial pensar sobre o tema para definir (ou
redefinir) o amanhã de cada indivíduo ou, pensando um pouco mais longe, de
todos nós...
Que tal promover projetos em que se busque a história, a definição, uma
compreensão mais aprofundada e ainda os parâmetros que regulam a relação
entre os homens e o dinheiro. A busca dessa informação tem que ter o
propósito de esclarecer, fundamentalmente, que no final das contas, dinheiro
não pode e não deve ser visto como objetivo de vida para ninguém e que, no
fundo, “as verdinhas” nada mais são do que um meio de troca e não a pedra
fundamental da existência humana...
Não considero o lucro e a busca da prosperidade como pecados ou chagas
capitais, mas ganância e ambição desenfreada constituem abusos e como tal,
promovem uma série de conseqüências nefastas a partir do momento em que
entram em cena. O maior de todos os erros consiste em acreditar que o lucro
tem que ser atingido a qualquer custo e que, para isso, é “permitido” até
mesmo desrespeitar os direitos básicos dos cidadãos e passar pessoas,
empresas, governos e países para trás...
“Wall Street” tem várias passagens em que se discute a relação entre os
homens e o dinheiro. Trabalhe com seus alunos uma pesquisa sobre quais
seriam as mais significativas e que idéias e valores são apresentados e
discutidos nas mesmas. (Como dica importante para essa atividade vale
lembrar que o personagem Carl Fox, protagonizado por Martin Sheen, pai de
Buddy Fox na trama e também do ator Charlie Sheen na vida real, personifica
o contraponto a ambição desenfreada de Gordon Gekko, o magnata investidor
interpretado por Michael Douglas).
*Editor do Portal Planeta Educação;
Doutorando em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da
Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor
Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima
Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).
Cobiça e desonestidade são premiadas no mundo
empresarial
Paul Krugman
O ponto, senhoras e cavalheiros, é que a cobiça é boa. A
cobiça funciona, a cobiça dá certo... e a cobiça, lembrem-se do que digo,
salvará não só a Teldar Paper, mas aquela outra corporação defeituosa
chamada Estados Unidos da América. Gordon Gekko, o pirata corporativo que
faz esse discurso no filme Wall Street, de 1987, termina dando-se mal. Mas
na vida real sua filosofia veio a dominar as práticas empresariais. Esse é o
pano de fundo para a onda de escândalos que hoje engolfa o mundo dos
negócios norte-americanos.
Permitam-me ser claro: não estou falando de moralidade,
mas sim de teoria da administração. Como pessoas, os líderes empresariais
não são hoje piores (ou melhores) do que sempre foram. O que mudou foram os
incentivos. Vinte e cinco anos atrás, as grandes empresas norte-americanas
não se pareciam muito com as instituições duronas em que se transformaram.
De fato, pelos padrões modernos elas eram como repúblicas socialistas. Os
salários dos principais executivos eram minúsculos se comparados às lautas
remunerações atuais. Os executivos não se concentravam obsessivamente em
aumentar os preços das ações; pensavam sobre si mesmos como servos de
múltiplos eleitorados, entre os quais os funcionários de suas empresas. A
corporação símbolo da era anterior a Gekko era conhecida internamente como
Generous Motors.
Hoje, estamos tão emaranhados na ideologia de que a
cobiça é boa que é difícil imaginar que um sistema como esse possa ter
funcionado um dia. De fato, na geração que se seguiu à Segunda Guerra
Mundial, o padrão de vida do país teve uma melhora de 100%. Mas o
crescimento perdeu o ímpeto depois disso − e chegou a era dos piratas
corporativos. Eles alegavam − e em geral com razão − que lhes seria possível
aumentar os lucros, e com isso os preços das ações, induzindo as empresas a
se tornarem mais enxutas e ferozes. Ao substituir por dívidas boa parte das
ações de uma empresa, eles forçavam os executivos a tomar jeito, ou a
empresa faliria. E ao mesmo tempo, dando aos executivos uma imensa
participação pessoal no sucesso das ações das empresas, eles os convenciam a
fazer o que quer que fosse necessário para aumentar mais e mais as ações.
Tudo isso fazia sentido para os professores de finanças corporativas. O
discurso de Gekko era praticamente um exemplo clássico da teoria do
“principal agente”, que afirma que o pagamento dos executivos deve estar
fortemente vinculado aos preços das ações. “Os executivos de hoje não têm
interesse na empresa. Juntos, os homens sentados aqui (os principais
executivos) controlam menos de 3% da companhia.” E nos anos 90 as grandes
empresas colocaram essa teoria em prática. Os predadores desapareceram de
cena, porque não eram mais necessários; as corporações norte-americanas
decidiram aceitar seu Gekko interior. Ou como disse com − aprovação − Steven
Kaplan, da Escola de Administração de Empresas da Universidade de Chicago,
em 1998, “agora todos nós somos Henry Kravis ‘ executivo americano’”. Essa
nova dureza de atitude foi imposta, acima de tudo, com pacotes de
remuneração de executivos que ofereciam recompensas principescas caso as
ações subissem. E, até poucos meses atrás, todos nós acreditávamos que
estivesse funcionando. Agora, à medida que cada dia parece trazer um novo
escândalo de negócios, podemos ver o defeito fatal da teoria: um sistema que
oferece recompensas suntuosas aos executivos pelo sucesso faz com que esses
executivos, os quais controlam boa parte da informação disponível para
pessoas de fora da empresa, se sintam tentados a falsificar a aparência de
um bom desempenho. Contabilidade agressiva, transações fictícias para inflar
o faturamento, o que quer que seja necessário.
É verdade que, com o tempo, não se pode escapar da
realidade. Mas uns poucos anos de realizações ilusórias podem propiciar
imensa riqueza a um executivo. Ken Lay, Gary Winnick, Dennis Kozlowski −
todos serão consolados em suas aposentadorias prematuras pelas contas de
poupança na casa dos nove algarismos que acumularam. A menos que terminem na
cadeia − e alguém acredita que algum de nossos modernos malfeitores
milionários terminará cumprindo uma sentença? A desonestidade é
indubitavelmente a melhor política.
E não, não estamos falando apenas de uns poucos maus
exemplos. As estatísticas referentes aos últimos cinco anos demonstram uma
divergência dramática
entre os lucros que as empresas reportam aos investidores e as outras
ferramentas de medida do crescimento dos lucros. Isso é um indício claro de
que muitas, talvez a maioria, das grandes empresas estão manipulando seus
números. Agora, a desconfiança quanto ao mundo empresarial ameaça nossa
recuperação
econômica ainda incerta; provou-se que a cobiça faz mal, enfim. Mas o que
reformará o nosso sistema? Washington parece determinada a validar o
julgamento do site, bastante apolítico, da Corporate Governance
(www.corpgov.net), que afirma, sem hesitar, que “de qualquer forma, dado o
poder dos lobbies corporativos, controle governamental muitas vezes
equivale, na prática, a controle corporativo”.
Talvez as grandes empresas se reformem, mas até agora
elas não demonstraram sinais de que estão mudando de comportamento. E é
preciso imaginar: quem salvará essa defeituosa corporação chamada Estados
Unidos da América?
Paul Krugman, economista, é professor na Universidade de
Princeton (EUA).