Analisando "Enron – Os mais espertos da sala".
Por João Luís Almeida Machado*
Disponível em: <http://www.planetaeducacao.com.br/novo/impressao.asp?artigo=1028>
. Acesso em: 23 jul. 2008.
Nós, brasileiros, sempre achamos que a autêntica
malandragem surgiu por essas bandas, abaixo da linha do Equador, mais
precisamente nessas terras abençoadas por Deus e bonitas por natureza. Somos
tão crédulos quanto a essa idéia que até mesmo fazemos piada de nossa
suposta capacidade de iludir, enganar e ludibriar sem que ninguém no mundo
possa nos igualar...
E realmente as manchetes dos jornais diários de nosso país nos fazem crer
que, em matéria de enganação e corrupção de valores, os brasileiros sabem
tudo e ainda se mostram criativos o suficiente para conseguir criar novos
expedientes e aplicar golpes ainda mais inventivos e originais.
Ou fizemos escola e estamos exportando esse triste know-how que pensamos ter
ou, por outro lado, essas práticas espúrias já estavam disseminadas mundo
afora desde os tempos de Adão e Eva... Apesar das evidências mais recentes
nos fazerem crer na primazia dos brasileiros quanto a golpes contra o
interesse público e/ou privado, penso que o mais provável é que ao aceitar a
maçã oferecida pela serpente aos primeiros habitantes do planeta é que
entramos de vez no reino dos descalabros e das mentiras, das fraudes e da
corrupção, dos golpes milionários e do escárnio de alguns em relação ao
interesse de muitos...
Comprovação de que fraudes não cabem apenas no bolso dos
brasileiros foi o caso Enron, ocorrido nos Estados Unidos entre os anos 1990
e o início do século XXI. Utilizando-se de esquemas fraudulentos em sua
contabilidade que inflavam o potencial da empresa e de seus projetos nos
Estados Unidos e em outros países, dando a ela visibilidade pública
grandiosa a ponto de torná-la a mais rentável entre todas as possibilidades
de investimento nas bolsas de valores nos EUA, a Enron se tornou um colosso
de crescimento.
Poucas eram as pessoas que sabiam da alteração dos balancetes da empresa e
das negociatas políticas em que estava envolvida a Enron. Seus principais
executivos tornaram-se num curto espaço de tempo celebridades do mundo
executivo local. A lucratividade da instituição foi tão grande que surgiram
vários interessados em associarem-se a ela em projetos nas mais diferentes
regiões do planeta.
Planos fracassados nas mãos de outras empresas foram comprados pela Enron e
logo se tornaram lucrativos projetos. Ninguém conseguia entender ao certo,
mas a mídia escrita, televisiva, radiofônica e mesmo a internet não paravam
de destacar o sucesso da Enron, alardeando que a empresa representava tudo o
que havia de mais moderno e qualificado em termos de moderna gestão de
empreendimentos.
Estavam sendo ludibriados o tempo todo. E aqueles poucos que levantavam
suspeitas a respeito do sucesso da Enron logo eram chamados de invejosos e
de arautos do fracasso. Dizem que é possível enganar alguém por toda a vida,
algumas pessoas durante algum tempo e uma enorme quantidade de indivíduos
também por períodos de tempo relativamente prolongados... Mas que, mais dia,
menos dia, a verdade vem a tona...
O documentário “Enron – os mais espertos da sala” é um expoente da nova
safra de produções norte-americanas que, na recente tradição firmada por
Michael Moore, se dedica a esmiuçar “o que há de podre no reino da
Dinamarca”... Não percam! É Dinamite pura!
O Filme
A crise de 1929, gerada pela superprodução e pela especulação no mercado
financeiro dos Estados Unidos levou muitos investidores e empresários que
perderam tudo a se suicidarem de forma dramática. Alguns se jogaram de altos
prédios e, com esse “haraquiri” geraram grande comoção no país.
O mesmo sentimento não foi sentido entre os norte-americanos quando alguns
executivos da Enron sacrificaram suas vidas, já que estavam condenados a
purgar nas cadeias pelos golpes que haviam lesado milhões de pessoas em todo
o país. Crimes contra o sistema financeiro que ocasionaram rombos grandiosos
nas finanças de bancos, financeiras, empresas privadas, do próprio governo e
também do pequeno investidor que havia acreditado nos miraculosos lucros
divulgados pela Enron.
Além deles, praticamente todo o estado da Califórnia, que havia penado por
alguns meses com apagões e blecautes que geraram sucessivas e altíssimas
elevações dos preços pagos pelos serviços elétricos prestados pela Enron
naquele estado. Ainda mais quando veio a tona que as panes elétricas
ocorriam a mando dos chefões da empresa que, com isso, queriam levar os
habitantes locais a desesperar-se a ponto de admitir o pagamento de taxas
mais elevadas por aqueles serviços para a Enron, companhia encarregada
dessas atribuições naquelas bandas...
O nível de ousadia e atrevimento, sem mencionar a aula de malandragem e a
total ausência de escrúpulos e caráter, por parte dos mentores de toda essa
fraude era tão grandioso que até mesmo experientes executivos, mentores de
bancos e empresas de médio e grande porte, acabaram se associando a Enron.
Dinheiro fácil, rápido e seguro – nos conformes das regras do mercado (pelo
menos aparentemente) – atraiu muita gente e levou a Enron a ser considerada
a empresa do ano em algumas oportunidades entre o final dos anos 1990 e o
início da década seguinte.
Quando as máscaras caíram e tornou-se insustentável a farsa, o mercado
norte-americano e internacional levou um enorme susto e um tombo de
consideráveis proporções. “Os mais espertos da sala” foram pegos com a “boca
na botija” e a “menina dos olhos” da economia norte-americana durante quase
uma década faliu da noite para o dia...
É essa história que nos é contada com grande riqueza de detalhes no
documentário “Enron – Os mais espertos da sala”, do diretor Alex Gibney. O
que se espera é que as lições que nos foram dadas sejam aprendidas para o
bem e que, se possível, novas fraudes possam ser evitadas... Para ver e
rever!
Para Refletir
1- Não existe dinheiro fácil. Desconfie de qualquer oportunidade de ouro que
lhe seja apresentada. “Esmola demais o cego desconfia”. Essas são apenas
algumas das lições que me foram dadas ao longo de minha vida por meus pais.
Nunca as esqueci e acredito realmente que não há vitória que possa ser
obtida sem suor, dedicação, empenho, estudo, planificação. Será que estamos
nos lembrando de alertar a nova geração dos riscos que existem nos atalhos
da vida? Quantas vezes paramos para não apenas dizer essas frases de efeito,
mas também para demonstrar através de exemplos que o mundo não foi feito em
apenas um dia e que, certamente, a construção de uma carreira e de uma vida
de êxitos irá demandar algum tempo? Se ainda não fez isso ao dialogar com
seus filhos, não perca tempo, ensinamentos como esses não podem estar
ausentes do legado que temos que dar para nossos herdeiros.
2- Estudar a Enron, a Crise de 29 e todos os momentos em que a especulação
abalou as bases do sistema capitalista é uma necessidade. Vivemos nesse
sistema e se não o compreendermos em suas minúcias passaremos por novos e
ainda mais delicadas situações. Nesse sentido é importantíssimo que peçamos
aos nossos alunos um mapeamento da história do capitalismo e das rupturas e
quebras ocorridas ao longo do caminho. Começar com subsídios da atualidade é
sempre interessante por despertar aos olhos dos estudantes uma proximidade
que torna a questão mais premente e viva...
3- Fraudes, malandragem, jeitinhos, corrupção e todos esses desvios de
caráter devem ser discutidos na escola. Vivemos num mundo onde os valores
cada vez mais são fixados a partir de bases alheias ao controle dos pais e
da escola. Novelas, filmes, sites da internet, celebridades sem escrúpulos,
políticos corruptos e safados e tantas outras pessoas e meios tem sido muito
mais presentes na formação de nossas novas gerações do que os professores ou
os próprios progenitores. Discutir essas temáticas com conhecimento de
causa, pautados numa visão de mundo ética e correta, pregando valores como a
honestidade e a solidariedade é dever e obrigação de todos aqueles que ainda
acreditam que o mundo pode e deve ser muito melhor no amanhã...
*Editor do Portal Planeta Educação;
Doutorando em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da
Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor
Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima
Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).