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As novas
tribos da BIC
Ela fisgou diferentes
consumidores com uma idéia que nasceu com os
piratas: os isqueiros estampados

Por João Carlos
Godoy
Peter Drucker, filósofo e administrador
austríaco, considerado um dos mais renomados
pensadores do mundo corporativo, citava sempre em
seus discursos a frase “O sucesso de ontem não
garante o sucesso de amanhã”. Essa mesma afirmação
também faz parte do repertório de Aroldo Fontes,
diretor financeiro da BIC América do Sul. E ele
costuma lançar mão de Drucker toda vez que bota à
mesa um desafio para sua equipe, acostumada à
liderança folgada em setores como isqueiros e
canetas. Pois bem. A última meta era aumentar ainda
mais as vendas dos isqueiros BIC, donos de 74% do
mercado brasileiro. A pergunta é: como?
Agregar tecnologia é quase impossível. Desde
sempre, os isqueiros são formados por uma roldana de
metal rugoso, que roda sobre uma pedra, gera faísca
e, em contato com o gás propano (liberado por uma
válvula acionada pelo polegar), acende a chama. E
mesmo que fosse possível desenvolver uma tecnologia
inovadora ou até um design revolucionário, seria
preciso repassar tais avanços para o preço final.
Acontece que Fontes nem queria ouvir falar de
aumento do valor do isqueiro. A saída, então, para
garantir o sucesso de amanhã foi investir num
negócio chamado sleeve. Nada mais é do que uma
“folha” com um desenho ou imagem bacana que reveste
o corpo do isqueiro. Exemplo? Estampas com músicos
ou jogadores de futebol, estampas com motivos
fashion. Simples assim.
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Sucesso:
Três milhões de isqueiros com estampas de
jogadores, músicos e carros foram vendidos
no Brasil. |
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Simples, mas certeiro. Desde que embalou seu
velho isqueiro de plástico com imagens descoladas, a
BIC viu a novidade ganhar a simpatia do usuário.
Hoje, os BIC sleeves respondem por 5% das receitas
da divisão de isqueiros (que fatura algo como R$ 120
milhões). A grande ironia da história é que a equipe
da BIC foi buscar inspiração justamente em quem
causou homéricas dores-de-cabeça à companhia: os
piratas. Numa pesquisa de mercado para saber como
atuavam os falsários, a empresa descobriu que a
grande maioria do público buscava “isqueiros
desenhados” nas barracas de camelô. Foi a senha para
lançar a coleção sleeve. No último dia 26, por
exemplo, durante a São Paulo Fashion Week, a empresa
apresentou produtos com estampas criadas pelo
estilista Alexandre Herchcovitch. Foram produzidas
600 mil peças que serão distribuídas
estrategicamente em pontos-de-venda localizados nos
principais centros de moda da região Sul e Sudeste
do País – como por exemplo, a rua Oscar Freire,
reduto paulistano das grandes grifes nacionais e
internacionais. “Lançamos a série limitada do
Herchcovitch com 80% do volume de produção já
vendido para o varejo antes de seu lançamento
oficial”, comemora Eliana Rodrigues, gerente de
produto da BIC.
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Moda:
Na Fashion Week, a BIC apresentou a edição
limitada dos isqueiros assinados por
Herchcovitchl. |
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Para a BIC, a série limitada de isqueiros não
representa apenas um nicho de mercado rentável, mas
também, uma oportunidade da empresa em fazer com que
seu público se identifique com a marca. “Nosso
consumidor não compra mais isqueiro por comprar e a
série limitada oferece algo diferenciado”, afirma
Fontes. Já para Herchcovitch, a parceria representa
um importante canal de divulgação de seu trabalho.
“É a democratização da minha arte, a oportunidade de
levá-la a milhares de pessoas”, explica o estilista.
O lançamento da série voltada ao público fashion é
resultado inspirador de outros sucessos realizados
pela empresa francesa. No início de 2006, a BIC
lançou a série Cars Collection, destinada aos
aficcionados pelo mundo automotivo. Vendeu um milhão
de peças. Meses depois, impulsionada pela Copa do
Mundo da Alemanha, a empresa sapecou no mercado o
BIC Goool, com imagens alusivas ao futebol. Outro
milhão de isqueiros vendidos. A edição também contou
com o apoio de um hot site, onde o internauta tinha
a oportunidade de baixar protetores de telas com
tabelas dos jogos atualizadas diariamente. E por
falar em internet, a fabricante experimentou o gosto
da vitória virtual com a criação do BIC Music. Foi
mais uma série de um milhão de isqueiros com
estampas de cinco diferentes estilos musicais e um
novo hot site para o internauta criar suas músicas,
gravá-las e ainda concorrer a prêmios.
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Foto: Daniel Wainstein
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Fontes,
diretor: “O sucesso de ontem não
garante o sucesso de amanhã”. |
Nesse lançamento, o que chamou a atenção da
diretoria da empresa não foi somente a venda dos
isqueiros, mas também a interatividade do público
com a idéia. Durante três semanas, o tempo médio de
permanência no site era de 20 minutos por usuário.
E, ao final de um mês e meio, foi registrado um
acesso de mais de 100 mil usuários. A partir desses
lançamentos, a BIC não parou mais: lançou em
setembro de 2006 a linha Charming, destinada ao
público feminino. “A aceitabilidade do público foi
tão grande que teremos que repetir a produção do
Charming”, reforça Fontes. “E estamos desenvolvendo
um novo tema para um próximo lançamento em abril”,
diz Eliana, sem revelar qual o sleeve do momento.
Além do sucesso das séries limitadas, a BIC tem
outro motivo para comemorar. A empresa iniciou,
entre os anos de 2001 e 2004, uma verdadeira batalha
contra a pirataria. Por conta dos produtos
falsificados, chegou a amargar um prejuízo de
aproximadamente R$ 60 milhões. Reagiu, investiu R$
12 milhões em treinamentos de fiscais, em agressivas
campanhas de marketing e parcerias com o governo
federal e conseguiu reduzir drasticamente a
pirataria. Hoje, a BIC respira aliviada e festeja
seus últimos resultados. A empresa, que faturou R$
291 milhões em 2005 ( o último balanço ainda não foi
publicado), só tem uma coisa a agradecer aos
piratas: a idéia do sleeve.
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| R$
291 milhões foi o
faturamento da empresa em 2005, o último
disponível |
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R$ 12
milhões foi quanto a
BIC investiu para acabar com a pirataria |
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